O ADEUS AO AMIGO E POETA JOSÉ ANTONIO DIAS MOTA






Ao ser surpreendido com a triste notícia do passamento do amigo José Antonio Dias Mota e ainda impactado com o fato, fui convidado pela amiga Linai Bastos para escrever algumas palavras de homenagem e agradecimento à vida deste grande poeta, músico, compositor, escritor, artesão encruzilhadense e colaborador de tantos anos do Jornal do Sudeste. Confesso que fiquei um pouco receoso com tamanha responsabilidade, pois estou eu aqui me atrevendo a usar das palavras, material de trabalho de poetas talentosos como José Antonio Dias Mota, que na minha opinião foi um dos mais brilhantes articulistas da centenária história da imprensa escrita de Encruzilhada do Sul, para expressar o sentimento que perpassa minha alma nesse momento e que certamente deve estar tomando a mente e o coração de todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com o Zé Mota, como era carinhosamente conhecido pelos seus amigos.

Quem tinha por hábito a leitura semanal da coluna AGENDA GALPONEIRA do Jornal do Sudeste, ficava maravilhado com os versos trazidos de forma poética e com o linguajar do homem do campo, que ele dominava como ninguém, reflexões profundas sobre as realidades sociais, fatos da atualidade e reminiscências de alguém com uma inteligência rara e uma sensibilidade ímpar.

O seu talento como poeta e compositor é sabido e reconhecido por todos, tendo sido premiado por diversas vezes em festivais de música nativista e feito parcerias com grandes músicos para a interpretação das canções de sua autoria. Igualmente suas habilidades como artesão com trabalhos maravilhosos em couro cru, verdadeiras obras primas, eram muito apreciadas. Apesar de todas essas qualidades, sempre manteve a humildade e a simplicidade.

Conheci o Zé Mota no ano de 1984 quando eu, então com 13 anos, tinha o desejo de aprender a tocar acordeom. Meu pai falou com ele que prontamente se dispôs a me ensinar de forma gratuita, sem jamais sequer cogitar pagamento ou retribuição. Lembro que até para que ele aceitasse um presente de aniversário ou uma pequena lembrança era uma dificuldade. Falava que seu intuito era me ajudar e incentivar. Foi um ótimo professor, embora desta vez o aluno não tenha superado o mestre. Naquela oportunidade tive a grata satisfação de conviver também com seus pais, seu Ciro e dona Ana Rita, pessoas igualmente bondosas. Me admirava e chamava a atenção a união daquela família, sua convivência amorosa e todos os cuidados e atenção que o Zé dispensava aos seus queridos pais, já idosos.

Nossa amizade permaneceu, embora a convivência tenha diminuído bastante. Quando sofremos a perda física de um amigo, refletimos sobre muitas coisas, principalmente sobre o quanto nossos trabalhos, responsabilidades e mudanças nos afastam das pessoas que nos são caras.

Em outubro de 2017 quando do falecimento do meu pai, eu e meu irmão recebemos muitas manifestações de apoio e solidariedade que até hoje nos comovem. Uma das mais importantes foi a do amigo José Mota. Em conversa que tivemos relatava para ele como era difícil aquela situação que todos devemos enfrentar, o quanto estava sendo penoso, mas que acreditava que conseguiríamos viver o nosso luto com dignidade, superar aquela dificuldade e que a dor iria passar. Ele prontamente com uma voz amável, porém forte, me disse: “ Vocês já superaram. Estão seguindo a vida e trabalhando, já superaram, podem me cobrar depois quando estiverem se sentindo melhor “ . Aquelas palavras foram como um bálsamo naquele momento de extremo pesar e só poderiam vir de uma alma tão pura e caridosa.

Minha gratidão pela amizade e pelas boas lembranças. “ Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro, pois nada se compara ao bem que ele é “ – Livro do Eclesiástico. Encontrei em ti um amigo. Até um dia.

Abaixo transcrevo um pequeno trecho da coluna Agenda Galponeira do Jornal do Sudeste, edição de 20 de janeiro de 1990.

AGENDA GALPONEIRA – José Antonio Dias Mota

“ Sempre o mesmo – o chimarrão

sangue esverdeado do pago

vai se escoando trago a trago

no porongo sobre as mãos,

é o pajador do rincão

que escreve e chimarreia,

é o cronista que se anseia

ao raiar da madrugada

com a notícia enropilhada

junto ao fogão que rodeia.

É o cronista semanal,

é o cronista galponeiro

no derredor do braseiro

no velho mate habitual,

sempre atento e informal,

sempre informal e atento

bombeando acontecimentos

cá no galpão – casamata

vos dando notícia exata

em versos trançados a tento.”


















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